A Cruz Vermelha de Frazão inaugurou a Casa Amiga, em Paços de Ferreira, estrutura de alojamento urgente apoiada pelo município com 20 mil euros anuais.
Cruz Vermelha de Frazão inaugura “Casa Amiga” com apoio de 20 mil euros anuais da autarquia
Resposta de emergência habitacional requalificada por reclusos de Paços de Ferreira
A Delegação de Frazão da Cruz Vermelha Portuguesa inaugurou oficialmente a Casa Amiga, uma nova infraestrutura de alojamento urgente e temporário, vocacionada para acolher pessoas e famílias em situação de extrema vulnerabilidade social e habitacional. Localizado no Polo de Ação Social da instituição, na Rua Dona Joaquina Vilela, no concelho de Paços de Ferreira, o equipamento foi concebido para dar resposta a ocorrências de rutura súbita — como episódios de violência doméstica, processos de despejo, desalojamentos decorrentes de acidentes ou outras situações imprevistas em que os cidadãos fiquem desprovidos de um teto seguro.
As instalações dispõem de seis quartos, nove camas, balneários, instalações sanitárias, cozinha equipada e sala de convívio, configurando um ambiente estruturado para restabelecer a segurança e a estabilidade emocional dos utentes. A requalificação do edifício assumiu um forte cariz de reinserção social: as obras foram executadas no terreno por quatro reclusos do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, fruto de uma parceria alargada que reuniu o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Penafiel, a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), a Junta de Freguesia de Frazão, voluntários e empresas mecenas da região.
Câmara garante protocolo de 20 mil euros anuais para assegurar sustentabilidade
Durante a sessão inaugural, o presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Paulo Ferreira, anunciou a formalização iminente de um acordo institucional com a entidade humanitária, garantindo estabilidade orçamental ao projeto. "Vamos assinar, nos próximos dias, um protocolo com a Cruz Vermelha de Frazão. A Câmara Municipal pagará anualmente 20 mil euros para utilizar parcialmente este espaço", declarou o autarca, vincando que a verba será transferida "todos os anos, independentemente de a estrutura estar, ou não, ocupada".
Paulo Ferreira sustentou que a iniciativa consolida o compromisso autárquico com o bem-estar comunitário: "Este espaço encaixa-se como uma luva no projeto da Câmara Municipal e na nossa máxima: as pessoas primeiro". O líder do executivo municipal reforçou que a intervenção camarária não se esgota nas obras materiais: "Se me dissessem que seria presidente de câmara apenas para fazer obras, não estaria nesta função. A minha vocação não é ser empreiteiro, é trabalhar para as pessoas e pelas pessoas".
O edil aproveitou a ocasião para saudar o Secretário de Estado Adjunto e do Trabalho, Adriano Rafael Moreira, presente na cerimónia, e enviou uma mensagem ao Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, seu antigo colega de faculdade: "Independentemente de qualquer conjuntura, este trabalho entre a câmara e o Governo tem de ser feito em conjunto, porque só juntos conseguiremos fazer mais e melhor".
Cruz Vermelha reclama menos burocracia e apela ao reforço das freguesias
O presidente da Delegação da Cruz Vermelha de Frazão e líder da junta de freguesia local, Joaquim Sérgio, sublinhou que a resposta social já se encontrava no terreno devido à premência dos casos: "Apesar de inaugurarmos oficialmente esta casa hoje, ela já se encontra em funcionamento. A necessidade é gritante e não podíamos esperar por esta cerimónia para começar a dar resposta". O responsável enalteceu a entrega dos trabalhadores e dos reclusos envolvidos na empreitada: "Esta obra foi feita com uma entrega total e o seu valor não está apenas no resultado que hoje vemos, está também na reinserção que aqui se constrói e continuará a construir".
Joaquim Sérgio dirigiu ainda um repto direto à tutela e à administração pública contra a lentidão processual. "Deixo também um apelo aos decisores: retirem tanta burocracia dos processos. Muitas vezes ela atrasa a resposta, desanima quem está no terreno e pode levar-nos a desistir, precisamente quando há pessoas que precisam muito de nós", advertiu.
Paralelamente, defendeu o alargamento das competências transferidas pelo Estado: "Já se descentralizaram competências para as câmaras municipais? Muito bem. Façamos também esse caminho em direção às juntas de freguesia. Somos quem está mais próximo da população e muitas vezes quem melhor conhece cada caso". O dirigente lembrou ainda as comemorações do 29.º aniversário da delegação e perspetivou futuras obras de ampliação do polo.
Trabalho prisional e inclusão social em debate na cerimónia
O diretor-geral da Reinserção e Serviços Prisionais, Orlando Carvalho, salientou a importância de dotar as respostas sociais de dignidade intrínseca: "Não basta proporcionar o acolhimento, é indispensável que esse espaço seja promotor da dignidade humana, da integração social, da capacitação e da valorização de cada indivíduo". O responsável frisou que a reabilitação exige uma cooperação estreita entre entidades: "Sabemos que a única forma de sermos verdadeiramente eficazes neste processo é através do trabalho em rede".
A encerrar a sessão, o Secretário de Estado Adjunto e do Trabalho, Adriano Rafael Moreira, colocou o trabalho no centro das políticas de inclusão, anunciando que, em breve, será apresentado na Assembleia da República o novo regime jurídico do trabalho dos reclusos, recentemente debatido no Estabelecimento Prisional de Tires. "Temos seguido um princípio muito simples: a integração faz-se pelo trabalho. [...] É nesse sentido que temos promovido a inclusão de todos, em igualdade e sem discriminações", afirmou o governante.
O secretário de Estado vincou ainda que as políticas públicas têm a obrigação de proteger os cidadãos que se encontram incapacitados de exercer atividade profissional: "Nós não podemos e não devemos deixar ninguém para trás". Ao abordar a temática da demografia, Adriano Rafael Moreira considerou que a longevidade populacional é uma vitória civilizacional dos 50 anos de democracia. Contudo, apontou que o grande obstáculo estrutural do país reside na quebra da natalidade, defendendo o reforço dos incentivos à maternidade e do apoio social de proximidade.
Fonte: www.averdade.com